Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Sobre os Feriados




Em 2012 o Brasil terá mais dois feriados do que no ano passado e ainda 3 “pontes”. Como se sabe, a situação em Portugal é a inversa. É mais um “sinal dos tempos”, mostrando que a dinâmica económica é diferente em várias partes do mundo, com reflexos na vida quotidiana.

Pode discutir-se até que ponto o Brasil não estará a “abusar da sorte” relativamente ao período que atravessa, mas acreditar que a redução de feriados resolverá problemas em Portugal significa miopia acerca dos indutores de competitividade.

Actualmente, os custos com a energia são o maior bloqueio à competitividade em grande parte das empresas. Não os salários, nem as férias ou os feriados.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 27 de Janeiro de 2012

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Com a verdade me enganas

Por vezes transparecem no espaço mediático as lutas de poder e influência que estão em marcha. Cada vez mais, comunicar – o acto de pôr em comum – assemelha-se a um teatro de marionetas; um jogo de espelhos entre o que se diz sem querer e o que se quer sem dizer. Paradoxalmente, mesmo quando não se quer e não se diz, está-se a comunicar.
Neste circo são tão graves os espaços cinzentos, onde há sobreposição e ruído, quanto os brancos, em que, ao nada inscrever, se deixa espaço para que cada um lá coloque o que bem entender – seja na forma, seja no conteúdo…
Luís Ferreira, Exertus – Consultores
Publicado no jornal Metro em 26-Jan-2012

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Choque de Competitividade




Têm sido tomadas medidas para melhorar a competitividade da economia. O foco tem estado no factor trabalho, cuja produtividade é relativamente baixa, num mercado caracterizado por vários elementos de rigidez.

Mas nada tem sido feito, pelo contrário, num dos pontos mais cruciais para a competitividade das empresas por ser um dos seus principais custos - a energia. Seja na electricidade ou nos combustíveis, tem sido a queixa mais frequente referida pelas empresas.

Os aumentos nas tarifas e no acesso à rede pulverizam o efeito na produtividade que se poderá obter com o fim de 3 ou 4 feriados. Isto para não falar nos custos de transporte, por terra ou por mar.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 20 de Janeiro de 2012

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Piratas Móveis




Vulnerabilidades na tecnologia das redes GSM, geridas pelas operadoras, estão a permitir que actividade de hackers provoque danos financeiros consideráveis.

O ataque mais comum passa por controlar os telefones das vítimas para efectuar chamadas, mensagens e a subscrever serviços de valor acrescentado, normalmente relacionados com empresas asiáticas, africanas ou do Leste europeu. Os utilizadores só se apercebem dos ataques quando recebem a conta.

Espera-se que este tipo de ataques se intensifique dado que, segundo os especialistas, a rede GSM é a parte mais vulnerável do ecossistema móvel.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 6 de Janeiro de 2012

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Postais de Natal




O número de sms enviado nesta quadra natalícia terá sido menor do que em anos anteriores. As razões são duas: a crise que vivemos e o cansaço de uma forma tão banal e intrusiva de saudar a lista de amigos, quase “sem esforço”. 

As sms foram trocadas por redes sociais e aplicações gratuitas, que resolvem o problema do custo.

A tendência de longo prazo é outra: postais de Natal tradicionais, telefonemas diretos, visitas inesperadas e outras formas de dar muito a poucos em vez de pouco a muitos. Porque o valor vem da escassez, da exclusividade e da proximidade.


Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Do It While You Can



Parece ser óbvio, e no entanto é onde gestores e empresários tantas vezes falham. Na vida pessoal como profissional "há sempre um tempo para cada coisa". Há um momento - por vezes pequeno - em que as condições se alinham para que determinado objectivo ou acção possa ser alcançado, concretizado, empreendido.

Depois de passar esse momento,  pode ser extremamente complicado conseguir avançar com o processo desejado, atingir as metas antes planeadas, empreender a acção imaginada.

Saber o momento certo é uma arte que advém de um misto de experiência, dedução racional que decorre da avaliação da variáveis isoladas quando misturadas num momento no tempo e intuição.

A esta arte chama-se gestão.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Consumerismo vs Consumismo


O momento adverso que a maioria da população atravessa obrigou a novos hábitos de consumo, com mais racionalidade na escolha dos presentes.

Mais consumerismo, abandonando o consumismo enquanto hábito inconsciente de compras por impulso, tem sido o mote deste Natal.

A sustentabilidade destes atos dependerá de cada um, aprendendo com os erros do passado.

Mas é na Educação das crianças e dos jovens que surge a maior oportunidade para imprimir este "novo" conceito.

De pequenino se torce o pepino.

Feliz Natal

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Reinventar

Imagine-se o acionista principal de uma grande cadeia de supermercados, ocupando a 2ª posição nacional de quota de mercado e a uma apreciável distância do líder.

O objetivo é ocupar a 1ª posição num curto espaço de tempo. Que decisões tomar ? Mais pontos de venda ? Mais promoções de produtos ? Mais ações de marketing e publicidade ?

A decisão brilhante da TESCO http://www.youtube.com/watch?v=fGaVFRzTTP4 mostra bem que é possível reinventar uma série de negócios tradicionais.

Antecipar à concorrência e preparar bem o futuro, é o mote. Investir na reflexão interna; mobilizar as equipas; profissionalizar os processos de decisão da empresa, contratando os melhores do mercado quando não há expertize.

Sábado, 10 de Dezembro de 2011

Encomendas



Os grupos de Facebook são um recente formato que junta pessoas com os mesmos interesses num mesmo tema, seja futebol, roupa ou gadgets. Alguns são extemporâneos e voláteis, outros criam verdadeiras comunidades. São tendencialmente auto regulados pelas regras que a comunidade cria implicitamente, às quais se juntam as regras da sociedade onde são inseridas - no comportamento, na educação e  nos costumes. Os administradores são normalmente coordenadores e dinamizadores, ou juizes em caso de problemas, mas raramente são eles a definir para onde o grupo realmente vai. Isso faz destas comunidades um bom exemplo do "The World is Flat" de Friedman, cada uma para clãs diferentes "We are all weird".

O grupo funciona numa base de partilha assente em níveis de reputação confiança individual dos seus membros. Tem-se assistido contudo a acções de shunting, lobbying e outros tipos de manobras de diversão para impactar a opinião do grupo no sentido positivo ou negativo, a partir de membros individuais, ou sub-grupos do mesmo.

As "encomendas" mais habituais são:

-> Elogiar alguém de forma indirecta mas pré acordada. A elogia indirectamente o trabalho de B de forma pública. C e D vêm imediatamente dar força aos pontos positivos, acrescentando links e outra informação. Tudo parece casual. Nem sempre é .... A comunidade deixa-se influenciar pelo consenso, que é uma das coisas mais perigosas da sociedade moderna.

--> A,B e C põem-se de acordo para prejudicar a imagem de D. A critica D, e B e C dão lhe força (logo ou depois de D responder). Atacam com moderação, para que a comunidade não sinta que D foi injusticiado.

--> A.B, C, D e E colocam regularmente informação uns dos outros, para aumentar as referências e melhorar a reputação no resto da comunidade. Este é o efeito que os locutores e gestores de programa televisiva já usavam há décadas, com convites cruzados que pareciam fazer acreditar que aqueles eram de facto os eleitos, seja para o que for.

Estes são apenas três entre muitos exemplos que convém conhecer, no mesmo escopo que o comportamento das pessoas num ambiente de grupo de trabalho. Sociologicamente é interessante e profissionalmente pode ser relevante.  



Sábado, 26 de Novembro de 2011

Boas Vendas

Atualmente as empresas estão focadas em cortes de custo, por vezes a pedir ao fornecedor de clips que reduza em 20% o preço. A crise significa que há empresas a morrer todos os dias e portanto consumidores que deixam de ter o seu produto disponível. Este é o tempo certo de transformar a sua empresa numa máquina de vendas, focar nos diferentes mercados em que o produto pode ser vendido. A oportunidade está aí. Falta saber se é dos que fica exclusivamente a trabalhar internamente na redução de custos ou se pretende crescer e também focar a sua organização no exterior garantindo mais vendas.
Paulo Sousa
Publicado no Jornal Metro de 24/11/2011

Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

agonia



agonia começa a chegar ao retalho. Conscientes dos problemas, os operadores procuram agora concentrar-se nas vendas do Natal, enquanto minimizam custos e adiam investimentos. Não será de estranhar se alguns lojistas da distribuição moderna não conseguirem operar na próxima Primavera, sobretudo se os bancos não estenderem linhas de crédito.


Os centros comerciais não estão melhor, e alguns têm risco de ver corredores inteiros esvaziados em breve. Naturalmente, serão os centros mais bem preparados e com mais tráfego a assegurar a sustentabilidade. As crises sempre foram momentos de oportunidade …

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Pior do que parece


Existem acções na Bolsa Portuguesa que não param de cair, de tal forma que hoje valem apenas 10 ou 20% do seu valor há um ano.  Estão mais do que em saldo, estão em liquidação final. Nesta circunstância, não é de estranhar que ninguém lance uma OPA sob bancos como o BCP? 

Mesmo com dificuldades de crédito internacional, o benco português é agora um alvo fácil de operadores de média dimensão internacional. Se tal não acontece, mesmo com os activos polacos, tal só pode significar uma coisa: a situação está ainda pior do que nos parece.

Aproveitar os pontos fortes



O Google+ está agora a competir directamente com o Facebook pelo mercado empresarial. A rede social da Google irá beneficiar do facto de se poder integrar nas demais plataformas e serviços da empresa, o que lhe permitirá, por exemplo, aparecer muito mais destacada nas pesquisas do motor de busca mais utilizado a nível mundial.

Ou seja, as empresas poderão chegar aos utilizadores de forma mais eficiente e mais barata através do Google+, o que ameaça o Facebook.

Falta saber a reacção dos utilizadores, que até agora têm mostrado pouco entusiasmo relativamente ao Google+.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 18 de Novembro de 2011

Hegemonia a pedido


A crise da dívida está a pressionar os europeus a aderir ao federalismo. Nunca a Alemanha teve tantas condições para conseguir, a pedido das outras nações, a hegemonia que não alcançou por outros métodos.

Países do centro e Bruxelas estão a pretender impor um modelo que poderá não seguir os trâmites democráticos que a tradição europeia exige. Por outro lado, reconheça-se que escolher o lento caminho democrático levará, com grande probabilidade, à desintegração do euro, da UEM e quiçá da UE.

Não é uma escolha fácil, mas 2012 deverá ser clarificador. Provavelmente, a opção escolhida pela generalidade dos países não será a da ratificação democrática.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 17 de Novembro de 2011

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Diversificar


Surpreende a história recente de HortaOsório, CEO do Lloyds, um dos maiores bancos do mundo? O português passou de líderbrilhante e com uma intensidade sem precedentes (7 dias por semana, 18 h/dia) aum executivo cabisbaixo, desmotivado e desamparado, sem capacidade de liderar.

Acabou por encostar às boxes, resignado. A lição é óbvia: a vida tem de ter diversificaçãode interesses, com equilíbrio entre trabalho, família e terceiros interesses.  Qualquer comportamento mono enfocado e degrande intensidade tem de ser necessariamente temporário.

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

O joio e a floresta

Tempos difíceis exigem maior sentido crítico: saber separar o trigo do joio e não confundir a árvore com a floresta.

A este propósito parece-me perigoso – além de demagógico – o caminho que se vem seguindo de perseguição às remunerações mais elevadas. Se não percebermos que talento e criatividade são portas de saída da situação em que nos encontramos, jamais conseguiremos alicerçar um plano de sucesso.

Tal como é louvável corrigir oportunismos e injustiças, é fulcral premiar e distinguir o mérito, resistindo à tentação de cortar os picos para nivelar – não traz melhores resultados e inibe muitas soluções.

Luís Ferreira, Exertus - Consultores.

Publicado no jornal Metro em 10-Nov-2011

Bancos mais seguros?


A banca nacional pode necessitar de capitais do Estado, com eventual nacionalização a prazo, o que suscita a questão sobre a segurança dos depósitos.

Naturalmente, bancos mais capitalizados conferem mais segurança e não parece haver, ao nível da zona euro, abertura política a que os clientes possam perder depósitos, sob pena de uma corrida aos bancos que os responsáveis europeus tudo farão para evitar.

Existe um fundo de garantia que pretende “proteger” 100 mil euros por titular/conta e que mesmo que não tenha capacidade de fazer face a um desmoronar do sistema, pode servir de bitola a um auxílio aos depositantes no caso de um problema desse tipo.

Portanto, mais do que a propriedade ou o capital dos bancos, poderá ser mais relevante o montante por conta/banco.

 

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 11 de Novembro de 2011

Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

EDP & Facebook

A EDP baniu um utilizador por contestar o plano nacional de barragens, alegando o seu código de conduta. O utilizador partilhou isso na rede com uma imagem e explodiram as criticas à esmpresa. Em segundos, milhares de pessoas entraream no site da eléctrica para contestar ou gozar.

A empresa demorou a reagir e explicou que podem ser colocadas opiniões, mas que existe um código de conduta (...). Em suma, não pediu desculpa. Não acalmou ninguém, irritou ainda mais gente e a bola de neve continua a crescer. Está a acontecer agora.

Lições :

1- Escrever um codigo de conduta não chega quando as pessoas não concordam com ele. Salvo insultos ou ameaças, apagar posts é simplesmente inadequado.

2 - Pedir deculpa rapidamente e mostrar humildade genuína é o unico caminho.

Pedro Barbosa

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

A Cultura e a Crise

Sim é importante. A Cultura contribui significativamente para o desenvolvimento do conhecimento e da criatividade de um País; para além de ser estratégica para o fortalecimento da Identidade Nacional.

Conhecimento e criatividade são fundamentais para a resolução da crise e, com a inevitabilidade de “Mais Europa”, a Identidade Nacional necessita do seu contributo.

Não sendo uma das funções fundamentais do Estado como a Justiça ou a Defesa, não deve ser grátis mas, como a Educação, “engenhosamente” colocada ao serviço do desenvolvimento.

António Jorge

Consultor e Docente Universitário

Publicado no Jornal Metro em 14Out11

Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

Day After

Foto: Luís Ferreira

Falta futuro à gestão e, sobretudo, à comunicação da crise. Inconsistentemente, atiram-nos com os “porquês” das fortes medidas de austeridade, escasseando, porém, os “para quê” e os “como”. Para estar disponível para a mudança, preciso saber melhor o caminho e com que cores se pinta o dia seguinte.

Neste particular, mais parecem aqueles – governo, líderes de opinião e mass media – apostados em comunicar a desgraça do que os que deveras promovem a construção de um caminho alternativo. Em 37 anos de democracia, criámos bombeiros e alguns gestores; fomos incapazes de gerar estadistas – de largas vistas e brilho de futuro.

Luís Ferreira, Exertus – Consultores

Publicado no Jornal Metro em 30-Set-2011

Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

Acreditar

De acordo com o memorando da Troika, os bancos tem uma tarefa hercúlea até 2015 para reduzir o GAP de liquidez, com vista a alcançar um rácio do crédito sobre os recursos de balanço de 120%.
Com este “fechar da torneira” do crédito, e que está em curso, as empresas já estão a ser afectadas na sua atividade e nos seus investimentos planeados, com óbvias repercussões no seu crescimento, e com dificuldades de negociação a montante e a jusante da sua cadeia de valor. Os particulares também estão a deixar de poder assegurar o seu habitual nível de vida, em muitos casos elevado porque estava alavancado no crédito ao consumo, obrigando-os a efetuar cortes drásticos nos gastos pessoais. A juntar a isto tudo temos o aumento de impostos diretos e indiretos, com um efeito devastador no rendimento das famílias e na atividade das empresas. E o que mais está para vir!
Contudo, a correr bem esta “receita” da Troika, é dito que no final de 2013 começaremos a ver uma “luz ao fundo do túnel”. É este ponto que tem sido muito discutido nos media, com muitos comentadores a duvidar que tal vá acontecer. Mas é razoável defender que, se uma empresa ou uma família deixar de estar endividada em relação à receita que gera, e demonstrar que são capazes de reestruturar a situação de aflição em que se envolveram, os bancos voltarão a analisar e a financiar os investimentos certos ao novo crescimento. É isto que se espera que aconteça no final de 2013; que tenhamos feito o trabalho de casa e que consigamos voltar a ter acesso aos mercados, para os bancos voltarem a financiar as famílias e as empresas, de uma forma virtuosa.
O ministro das finanças disse há dias que para sairmos desta situação não há um só caminho, mas que o Governo está a tentar tomar as medidas acertadas. Os portugueses normalmente colocam sempre em causa as decisões de quem manda. E quando a previsão ou o projeto corre mal, a primeira coisa que lembram é que na altura pensavam precisamente o contrário. É cultural.
Mas é preciso acreditar. É preciso acreditar que é possível sair desta infeliz situação e entrar numa nova espiral, numa espiral de enriquecimento.

Percepção



A descoberta da real situação financeira da Madeira está a causar desconforto aos portugueses do continente.

Sem prejuízo do sucedido em anos anteriores, percebeu-se que o Governo Regional continuou a gastar, desviando fundos e sonegando informação, mesmo quando o país já apresentava sinais de grande debilidade financeira. Os portugueses sentem-se enganados e abusados.

Mas, simultaneamente, há muitas criticas à forma como a opinião pública dos países do norte e centro da Europa tratam os países do Sul, precisamente nas questões relacionadas com o sobreendividamento e informação escondida.

É uma questão de percepção...

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 22 de Setembro de 2011

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

O Processo



Kafka explicou-nos como o absurdo, quando repetido, corre o risco de ser levianamente assumido. Não será também o nosso sistema financeiro um processo?  Porquê assumir limites como metas? O défice não deveria ser nulo?
Economicamente falando, a questão é discutível.  Muitas vezes é melhor optar por gastar (via investimento) mais do que se pode, porque supostamente se gera mais valor do que a taxa do respectivo crédito e para não perder oportunidades do mercado.
Este não é, infelizmente, o nosso caso. Preparar ao país para défice nulo no longo prazo é tornar Portugal Sustentável.

Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Jogo da corda

Os Bancos tem um único objectivo até final do ano, e anos seguintes, até 2013: Diminuir a carteira de crédito e aumentar os recursos de balanço, ou seja, controlar o GAP de liquidez.

Esta estratégia está em linha com a desalavancagem prevista no programa da Troika e portanto será uma inevitabilidade.

As empresas e os particulares estão também a fazer a sua desalavancagem, reduzindo e pedindo menos crédito. Quem não o estiver a fazer, já pode ter colocado em causa a viabilidade da sua própria empresa ou a solvência pessoal enquanto particular.

O Governador do Banco de Portugal veio hoje afirmar, que os Bancos deveriam utilizar as ajudas previstas no acordo da Troika para continuar a apoiar a economia real. Isso implicaria uma entrada do Estado no capital da banca e, sinceramente, não me parece que isso vá acontecer de forma generalizada. O que a banca efectivamente pretende é receber o que o Estado lhe deve, ganhando liquidez e financiar a economia.

Parece haver um efectivo desencontro de interesses nesta matéria, e um bom exemplo é o acordo que tarda a acontecer sobre a alteração contratual anunciada nas linhas PME Invest que estão em curso, e que implica uma moratória no reembolso do capital aos bancos por mais um ano.

Partindo a corda, a "coisa" pode melhorar.

Falta de Seriedade


Infelizmente, os portugueses tem sido vitimas da sua própria falta de seriedade. Falta de seriedade na cidadania de discutir os problemas reais do país, em vez de concursos de famosos ou penalties por assinalar. Este clima de falta de responsabilidade generalizado - e de falta de sentido de discussão dos problemas (em vez de criticar politicos e seguir para outro assunto) - conduziu a este estado, em que governantes usam e abusam do poder que têm, perante total impunidade e silêncio dos mais altos órgãos de Estado.

Para cúmulo, os supervisores vêm agora dizer que a responsabilidade é de quem enganou, e não de quem foi enganado. Sejamos sérios, todos. É evidente que a culpa foi dos governantes da Madeira ( e sobretudo dos eleitores, que os elegeram já consecientes dos tipos de políticas que praticam), mas é para isso que existem supervisores pagos por todos. Se não cumprem, são culpados também. Tão simples como isso. O mercado puro é um blogue, não é um axioma.

Pelo menos que não fiquem impunes os culpados de todo este disparate. Os contribuintes da ilha devem pagar pelos erros daqueles que elegeram, enquanto os que esconderam para baixo do tapete a falta de seriedade que até agora praticaram devem ser responsabilizados pelos órgãos de Estado competentes. Pode não servir de muito para resolver este problema, mas evita outros, e reduz o volume da diarreia verbal que temos vindo a ouvir do líder do Governo local.



Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

Auto estima

A forma ténue como recentemente destacamos nos media os elogios do FMI, sobre os resultados positivos alcançados no nosso caminho da execução orçamental, revelam muito pouco auto estima por aquilo que estamos a fazer bem e num ambiente de grande adversidade.

A prova, foi retirada pela forma exacerbada como destacamos as recentes notícias do “buraco” da Madeira, abafando por completo as notícias positivas que simultaneamente estavam a ser produzidas pelo FMI e UE.

Este é um mal geral e que só se altera através de uma mudança de mentalidades, as quais, são talvez as mais resistentes à mudança.

Livres


Já muita tinta foi consumida a escrever sobre os horários de funcionamento do comércio. A polémica entre os que defendem uma visão mais próxima dos consumidores – procurando a compatibilização de horários de acordo com os desejos e necessidades destes – e os que consideram que esse principio está errado – os horários devem ser marcados segundo a agenda de quem vende e não de quem compra – é antiga e não existe consenso. Os exemplos internacionais são de tal forma diversificados que também não marcam a pauta neste tema.


Os mercados abertos e de livre concorrência geram melhores resultados para todos. Para os clientes, que têm acesso a melhores preços, a mais variedade de oferta e quase sempre a melhor atendimento e serviço. Para as empresas de distribuição, porque mantém princípios de boa gestão e altos níveis de competitividade (o erro paga-se caro e tem de ser evitado ou corrigido rapidamente), preparando-se assim para se defenderem de potenciais concorrentes enquanto adquirem competências para outros mercados.

Em livre concorrência é o equilíbrio entre a oferta e a procura que define o mercado, mas tendencialmente existe mais oferta que procura, pelo que acabam por ser os consumidores a tomar – cada vez mais – as decisões relevantes. Neste contexto, parece evidente quem pode e deve marcar quais os horários em que quer fazer as suas compras, sobretudo quando o concorrente digital está aberto 24H.

Com honrosas excepções que merecem aprofundado estudo, as regulações e limitações impostas por reguladores, leis, governos nacionais ou regionais, apenas acarretam maior assimetria entre oferta e procura, com óbvias perdas de produtividade e competitividade. As limitações de horários que continuam a existir nos mercados constituem cedências que não acarretam valor a uns nem a outros, mesmo que com decrescente relevância.

De facto, que sentido faz hoje não ser possível vender produtos de noite onde o ruído não é problema? Porque é que só se podem vender fraldas, revistas ou manteiga em postos de abastecimento depois da meia noite? Porque é que um bar não pode servir refeições toda a noite, mas as roulottes de duvidosa higiene obtêm licenças para tal? Até onde nos levam estes proteccionismos? Nem sequer aprofundo a questão dos fármacos, porque esses merecem um artigo para si só, tal é a gravidade da situação.

Como disse um dia o falecido Ernâni Lopes, existem muitas e fortes razões para liberalizar até ao limite o funcionamento do comércio, mas a principal é a competitividade e a produtividade do mercado. Não é esta a questão do momento?

Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

Patinagem Artística



O novo ministro das finanças trouxe para o palco mediático nacional uma forma diferente de comunicar.

As suas intervenções são pausadas, ponderadas, estruturadas e é agradável verificar uma clara demarcação de face ao tom populista e espampanante que costuma caracterizar o discurso político em Portugal.

Mas, analisando mais o conteúdo do que a forma, verifica-se que Vítor Gaspar permanece titubeante, nomeadamente pela recorrente dificuldade de apresentar os "cortes sem precedentes na despesa pública".

Parece ser um caso de boa nota artística, mas com nota técnica bastante comprometedora.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 16 de Setembro de 2011


Muita táctica pouca estratégia

Para acreditar numa estratégia, é preciso que ela inclua um conjunto de medidas que façam sentido entre si e que, há luz de acontecimentos do passado, presente e previsão de futuro, sejam implementadas com determinação.
Mas os sinais que assistimos da política económica é de ajustamentos sucessivos e muitas vezes contraditórios, agravando o sentimento de incerteza nos mercados. Este clima é propício para que a iniciativa privada se mantenha com uma atitude demasiado prudente, face aos indicadores económicos das principais economias mundiais.
Falta estratégia que inspire confiança, e que retire o sentimento actual de que só os Estados é que têm condições para promover a recuperação da economia.

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Mercado Paralelo



Já se escreveu muito (nunca é demasiado) sobre o facto dos Governos serem incapazes de fazer um corte na despesa, abusando da sua condição de monopolista sobre os seus accionistas. Tem-se escrito pouco sobre os efeitos nefastos e perigosos de algumas das medidas.
O aumento generalizado de impostos e taxas e a diminuição das deduções constitui um estímulo à fuga ao fisco e ampliação do mercado paralelo existente em Portugal. É questionável se estas são as melhores medidas, mas é inquestionável que têm de ter um prazo, sob pena de condicionarem o sistema em definitivo

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Quem Paga a Crise?

A componente da crise a ser resolvida com o aumento das receitas do Estado tem duas vias, os impostos sobre o Capital/Património e os impostos sobre o Trabalho.

Ambos os lados da receita terão de dar o seu contributo, com uma percentagem que dependerá das opções políticas. Ultimamente tem-se enfatizado os argumentos para evitar a tributação do Capital afim de evitar a fuga de divisas mas, de igual modo, pode existir fuga de Trabalho, facto mais prejudicial ao País pois perdemos especialização e talento.

Outros Países já compreenderam esta realidade pedindo esforços doseados em conformidade, como será em Portugal?

António Jorge

Marketeer e Docente Universitário

Domingo, 11 de Setembro de 2011

Um Exemplo que vem do Norte

Volvidos 3 anos sobre a intervenção do FMI na Islândia, os resultados obtidos são, no mínimo, surpreendentes. Senão vejamos: a economia cresce a 2% prevendo-se 4% para 2013, o défice público reduziu de -9% para -4%, o défice externo passou de -28% para +2% e o desemprego caiu cerca de 50%. A Islândia é a prova de que é possível sair da crise, a questão que se coloca é se Portugal, que se encontra numa situação bem menos difícil que a Islândia de 2008, será ou não capaz de seguir os bons exemplos. Jorge Serra Gestor Publicado no jornal Metro em 9/9/2011

Consumo no Natal

Como será o o consumo neste final de ano, sobretudo no mês de Natal?
A tendência de quebra de consumo está a colocar algumas marcas em risco e os fundos que as suportam nem sempre têm oxigénio ou vontade para as sustentar. As empresas mais bem preparadas ajustaram stocks, cortaram custos e preparam-se para a travessia do deserto, procurando sair reforçadas da crise (ou será um novo e definitivo estado da economia?).
Neste cenário, o que se pode esperar do consumo este Natal, tendo em conta a menor disponibilidade financeira dos portugueses, sobretudo da classe média e média alta? Não há estudos que nos possam dar resposta a esta pergunta, porque é irrelevante saber o que as pessoas pensam fazer: elas não sabem. Também não há históricos que possam valer - não há memória de uma situação assim, especialmente se tivermos em conta o panorama de instabilidade internacional e inflação/taxas de juro desencorajantes. Farei aqui um exercício arriscado de adivinhação, com a lógica e bom senso como único suporte às minhas previsões pessoais…
Espera-se uma quebra ligeira no consumo de brinquedos, mais no valor das prendas do que na quantidade. Entre os que mantêm o emprego – ainda assim a esmagadora maioria – não se esperam alterações grandes, excepto talvez uma redução nas consolas de videojogos. Haverá também – como nos demais sectores – uma maior procura por promoções e poupança, pelo que se espera um estreitamento das margens para todos.
No vestuário e calçado, deverá existir uma quebra mais significativa, eventualmente de dois dígitos, tanto no infantil como nos adultos. Nos artigos de luxo, será o luxo acessível a brilhar nesta época. O sector alimentar terá uma quebra pouco significativa, quase irrelevante nos artigos de consumo da época, eventualmente maior nos gifts alimentares. Dramática será a situação no mercado imobiliário e de distribuição automóvel. Dramático ao ponto de mudar de forma definitiva os agentes que operam no mercado. Estes dois sectores podem no entanto ajudar os demais a sentir quebras menos relevantes. Pode ser que alguns portugueses, impossibilitados de realizarem investimentos em bens duradouros, não transitem os valores remanescentes inteiramente para poupança, vertendo uma parte para o grande consumo, minorando as perdas nesses sectores.
Onde não se esperam quebras é nos gadgets com grande aspiracional. iPads, smartphones e outros objectos de desejo serão os menos afectados pelas medidas decretadas …
Publicado na Hipersuper

Sábado, 10 de Setembro de 2011

Troikisses

A Troika, por muito que nos custe pelo orgulho que merecemos ter como portugueses, veio obrigar-nos a fazer o que qualquer gestor já sabia ser necessário há demasiado tempo. Gastar menos, ser mais eficaz e produtivo. Eliminar proteccionismos em legislação aplicável ao mercado de trabalho, comércio ou função pública, entre outros. Criar condições para a produtividade. Até lá, pagaremos pelos erros. É justo. O que não é justo é vender empresas a qualquer preço. Sobretudo empresas como a EDP. Soberania nacional é saber travar aproveitamentos alheios dos momentos débeis internos.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

Governo de Gestão



As expectativas relativamente a um novo governo são sempre muito altas.

Quase em uníssono, pede-se aos novos intervenientes que sejam capazes de desenhar “estratégias de longo prazo para o país” e que “iniciem reformas de fundo”.

Não será pretensão a mais? Não se arrisca, dessa forma, que cada governo e cada ministro queriam tentar fazer um país novo, à sua medida, a cada quatro anos? E fique tudo sempre a “meio caminho”, se tanto?

Talvez fosse preferível que o governo estivesse orientado para a boa gestão da coisa pública e a única opção estratégica fosse decidir onde o Estado deve ou não estar.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Publicado no jornal Metro em 2 de Setembro de 2011

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

Regresso às Origens

Portugal hesita entre o que já foi e o que há-de ser. Talvez, como escreve J. Gil, tenha medo de existir. Porém, um lado positivo da “crise” é obrigar-nos a fazer escolhas – criteriosas, selectivas e rápidas.

Convicto que poderemos ser o que quisermos mas não tudo o que queremos, a nossa economia deve reencontrar áreas de valor distintivas e aí concentrar esforços. O mar, a floresta ou o sol serão os recursos mais preciosos? Então construamos inteligentemente redes de competitividade e inovação viradas para fora e o futuro. Dispersar recursos mantém a clientela feliz, mas hipoteca o amanhã.

Luís Ferreira, Exertus – Consultores

Publicado no Jornal Metro em 1-Set-2011

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

A longa controvérsia sobre as vendas curtas



Alguns países europeus anunciaram a proibição de vendas a descoberto de acções, tentando mitigar a pressão vendedora enfrentada pelo sector financeiro. A péssima performance dos títulos nas últimas semanas e alguns rumores sobre dificuldades dos bancos, deram justificação moral aos supervisores para a proibição de vendas curtas.

A controvérsia em torno do "short-selling" dura há décadas. Os críticos argumentam que se trata de uma estratégia destrutiva para o mercado e empresas. Isto porque quem vende uma acção a descoberto terá de a comprar mais tarde, tendo interesse em que a sua cotação caia, de preferência rapidamente. Essa necessidade pode dar azo a que se façam circular rumores ou reunir outros "short-sellers" com o objectivo de derrubar a cotação de um título, o que poderá ter impacto para além dos mercados. No caso do sector financeiro, a prática agressiva de vendas curtas induz risco sistémico.

As vendas curtas têm um papel no mercado. Por exemplo, permitem aos investidores expressar uma opinião pessimista sobre uma empresa. Mas o seu papel mais importante está em darem liquidez ao mercado, tornando o processo de formação do preço quase sempre mais eficiente. Vários estudos provam que a acção dos "short-sellers" ajuda a reduzir a volatilidade, alisando os movimentos mais fortes, sejam de alta ou de baixa.

É uma discussão antiga e que perdurará. Porém, no contexto actual, as proibições feitas pelos reguladores aparentam não ser mais do que uma intervenção no mercado com o objectivo de fazer subir as cotações no curto prazo.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no Diário Económico em 17 de Agosto de 2011

UPDATE:
A proibição de “short-selling” nas acções do sector bancário europeu levou a que os investidores que continuam a acreditar na baixa das acções a fazê-lo através dos futuros. Ou seja, não podendo vender acções a descoberto, vendem-se contratos de futuros sobre os índices que, sendo uma “porta mais estreita”, provocaram uma queda muito forte da bolsa no dia 18 de Agosto, que começou no DAX e contagiou todas as outras praças mundiais.